Clarice,

Chorei por duas horas pelo teu suicídio que ainda não aconteceu. E a queimadura de cigarro na palma da minha mão direita não me deixa te escrever, te pedir pra não ir. Eu queria gostar menos de você, pra segurar teus pulsos e te vigiar de ti. E ser egoísta, e gritar não-vai-por-favor-você-fica-tão-bonita-rindo. Mas não posso, você sabe, não posso. E também não posso ir com você que não é a hora e ainda tenho uns cigarros pra fumar. Se você for vou fumar por mim e por ti. Vou tomar os porres que não tomou, e tentar enxergar a beleza, que só com teu olho lindo você veria. Eu que já sou duas, serei quatro, porque te abraçarei até no que tu não sabe ainda ser. Eu queria tanto que fosse. (…) Eu queria tanto que nos permitíssemos, juntas. Não uma a outra, não tô falando disso, não é o egoísmo do amor. É eu e você tendo coragem de puxar o que a gente esconde no porão da gente e ser. Ser inteira. Mas você sabe, há borboletas que só vivem vinte e quatro horas. E não ter medo é o maior de todos os nossos pecados. Eu que não rezo acenderei velas por ti, e implorarei a um Deus moribundo em mim pra cuidar bem de você. E chorarei em toda noite de lua cheia, apesar de já chorar. Tu é bonita demais pro mundo, é isso. Tu é a menina mais bonita da cidade, que o Bukowski fala. Tu tem aquela beleza estranha que não cabe no mundo, que é demais. O mundo não te merece, e você não suporta ver de longe e não alcançar, não sentir, não ser parte. O mundo não te merece mas sou ambiciosa demais e te queria por perto. Uns mapas, uns cigarros, umas dores, uns risos, dividiria tudo contigo, mas não posso pedir que fique Clarice. Gosto demais de você pra te pedir pra mim.

Mas ainda tenho vinho na geladeira. Pra que partir quando ainda tem vinho?

Clara D. 





























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